segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Isso é que é artesanal

Se você,
meu amigo cervejeiro caseiro, se orgulha de dizer que a breja que elabora é artesanal, pense de novo. Você, caro companheiro de hobby, que usa densímetro, refratômetro, sais, leveduras importadas, automatizou seu equipamento e tem tanques cônicos para fermentar, não viu ainda o que é efetivamente usar método artesanal no fabrico de uma cerveja. Artesanal mesmo é o que faz, desde 1935, Rupprecht Loeffler, esse senhor simpático de olhos vivos e azuis, na Canoinhense, a mais antiga cervejaria do país. Lá, eu e marido estivemos nas férias (não vou dizer quando, pra notícia não ficar velha).




Na charmosa casa fica a cervejaria,
onde s. Loeffler nos espera com um cativante sorriso




Ele nos oferece suas quatro cervejas
e ainda brinda com convidados

A fábrica foi inaugurada por alemães em 1900 e adquirida pela família Löffler em 1924 por 110 contos de réis e dois cavalos. S. Loeffler, que nasceu em Corupá (SC), em 1917, toca a cervejaria desde 1935. Uma vez por mês ele produz 1.500 garrafas de quatro marcas cujas receitas estão na família há muitas gerações. Leves, em torno de 3%, elas seguem a Lei da Pureza e usam apenas malte, lúpulo, água e fermento. Ele pasteuriza suas cervejas.

O moinho

Há mais de 20 anos ele conta com a ajuda de Tadeu Massaneiro, de 64 anos. Ex funcionário da distribuidora que a Brahma tinha na cidade, foi ele quem nos deu o tour pela interessante cervejaria. A água vem do poço para uma caixa e direto para o tachos de cobre que cozinha o malte no fogo à lenha .

O tacho de cobre e abaixo o forno


Depois de aproximadamente uma hora de brassagem, o mosto passa para o tacho de filtragem de madeira de carvalho que tem um fundo falso. Depois de separado o bagaço, o mosto volta para a panela de cobre onde é fervido e recebe o lúpulo.


O tacho da fervura e a concha que ele usa para levar o mosto
à banheira resfriadora

É com uma concha improvisada que todo o líquido é passado para uma mega banheira de aço onde ele resfria sob um ventilador e, por meio de um cano, segue para o fermentador. O processo, segundo Tadeu, geralmente vai das 3h às 10h.


Olha o fermentador
Juro que segurei a respiração


Lavador de garrafas, ele usa soda cáustica para tirar os adevisos e toda a sujeira

A escova que limpa as garrafas é feita de crina de cavalo

Os barris de carvalho onde a cerveja descansa têm mais de 100 anos e vieram da Europa, como a maior parte do equipamento.



É assim que eles engarrafam...



Casado com Gerda, de 85 anos, S. Loeffler tem quatro filhos, seis netos e uma bisneta. E ele atribui à cerveja caseira, que não tem conservante e faz bem para tudo, a força que exibe até hoje. E garante: bebe desde os três anos. "Lá em casa éramos cinco piá (criança) e não tinha leite para todo mundo. A mãe brigava com o pai e dizia que era para dar chope para todo mundo. Crescemos fortes, com saúde e sem pegar mosléstia. Os vizinhos pegavam, mas nós eramos tudo corado, forte, com boa saúde", lembra sorrindo. Todos os dias, ele bebe pelos menos um copo do que chama de "líquido medicinal". "Meu pai, meu avô, meu bisavô, todos faziam cerveja lá em Munique. Do mesmo jeito que era lá, fazemos aqui. Meus filhos vão ficar com a cervejaria. Não podemos deixar morrer a tradição. Temos que ter cerveja pura".

Rótulo de homenagem aos 90 anos de S. Löffler


S. Loeffler é adorável, simpático e gosta de conversar. Ele passa o dia no caixa da cervejaria, onde anota os pedidos de todos os fregueses a lápis e recebe visitantes de todo canto do país. Cada uma das quatro cervejas que vende, Mocinha, Jahu, Nó de Pinho e Malzebier, ele reconhece de longe, pela cor da tampinha.

O bar é um capítulo à parte. Dezenas de animais empalhados enfeitam as paredes da casa antiga. Alguns estão em poses jocosas, fumando, fazendo gfaça. O irmão de Rupprecht, Willhelm, era taxidermista. "O tamanduá-bandeira caçamos no Mato Grosso, na floresta aqui perto de casa, caçamos capivaras, quatis, lontras e bugius. Só de macacos empalhados temos mais de 50", conta ele.

Experimentamos na visita todas as cervejas, como não poderia deixar de ser. Docinhas e leves, elas não são para todos os paladares, mas fazem sucesso e são orgulho na cidade. Do lado de fora da cervejaria, sob um frondoso pinheiro canadense (juro que esquecemos de tirar as fotos), há mesinhas num espaço Biergarten muito frequentado pelos jovens que estudam na faculdade de Canoinhas. Nós adoramos o passeio. O sol já estava se pondo e o friozinho do início da noite de inverno nos mandou embora, mas a visita ficará na nossa memória.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

FemAle na Estrada: OKTOBERFEST em Ribeirão Preto

Dia 31 de outubro foi dia de festa, dia de Oktoberfest.


"FemAle Carioca esteve aqui"

Foi um super festão em Ribeirão Preto, pra comemorar 1 aninho de pura travessura do Empório Biergarten, aquela lojinha gostosésima de cervejas em Ribeirão.

Chegando lá, no dia 31 mesmo, visitamos a Cervejaria Lund, que abriu há pouco na cidade. O cervejeiro é o Evandro Zanini, e as produções são Pilsen, muito, muito honesta, e Munich, muito bem feita também. Tem tudo pra ganhar o mercado. Encontramos, de quebra, o Henrique, presidente da ACervA Mineira.

Tatiana, Evandro, Henrique, Yussif (o feliz proprietário), Botto e Marcelo


Modelo da Varca bebendo um Pilsen da Lund



O Munich sendo degustado

Todos os chopps na pança, partimos pra Oktoberfest, que começaria às 16h.


Foto roubada do Lamas Bier

Tudo lindo, decoração com as cores da cidade de Munich, comida típica alemã, blusa-convite, copo-convite, banda tocando músicas alemãs e 600 litros de chopp, dentre Colorado Indica e Appia, Bamberg Rauch, Cevada Pura Pilsen, Lund, as diversas caseiras, incluindo a Wit com capim cidreira, do Luiz Antônio (que arrebatou o 4ª lugar no IV Concurso), Taison (uma Saison, leva coletiva da AceRvinha Ribeirão Pretana), Red Jaguar (também leva coletiva da AceRvinha), e cervejas como Eisenbahn 5, pale ale, weizenbock, weiss, Aecht Schlenkerla Märzen, Black Sheep Ale, e outras, UFA!!!!

Ah! Não poderia esquecer o maravilhoso refrigerante de maçã DOM. Detalhe: eu não bebo refrigerante. Mas bebi muuuuiiito DOM na festa. Queria ter trazido pro RJ, mas é bom evitar a barriga, como diria o queridíssimo personagem do Chaves, Jaiminho, com sua fadiga.

Choppeiras!


Petiscos típicos!


Conheci na festa o cervejeiro de Uberlândia, Rafael Aquino. Foi um super prazer, pois só o conhecia de orkut, sendo que ele foi o primeiro divulgador do nosso blog. Obrigada, Rafael! Estamos te esperando aqui no RJ!


Rafael Aquino, sua Vivian, Botto, Eu e Henrique



David, Luiz Antônio Teixeira, Renato Vergani (AceRvinha) e Botto


Os preciosíssimos organizadores, Gabi e Marcelo!


Que família linda! Tive o prazer de ficar na casa desse casal maravilhoso, que é o Renato (que obviamente não está na foto), a simpaticíssima, linda Camila e a gostosíssima, maravilhosíssima, cheirosíssima Clarinha. Me apaixonei demais! Senti até saudades quando cheguei aqui. Pode?!


Galera com o Bira da Beer Life, que rodou 400km pra prestigiar



A bandinha. Ein Prosit! Ein Prosit!



"Gueral". Umas 150 pessoas se divertiram a valer!


Já que quem viaja tem que aproveitar tudo como se fosse o último dia, acordamos muito mais ou menos e fomos pra brassagem coletiva da AceRvinha Ribeirão Pretana.


O churrascão, com chopps Colorado e Bamberg, que sobraram da Oktoberfest, rolou na casa do Gustavo Danhone, mega gente boa. Obs: Pessoas do RJ, imaginem um churras com esses chopps... Só Jesus na Terra.


1 torneira de Indica e outra de Bamberg Rauch (Medalha de Prata no European Beer Star). Atrás, Gustavo e Botto (sempre com mau gosto pra se vestir. rs).


Botando minha mãozinha SiniXtra na leva do pessoal


Parte da AceRvinha (esse R representa o sotaque puxado)



Cerveja do Renato Vergani e Rodrigo. Sempre homenagem ao rock.


No fim da noite, domingo, de dupla ressaca, não poderíamos fazer mais nada que não partir pro Cervejarium, bar da Colorado. Comemos a "batata frita do Zé Virgílio", e bebemos mais chopps Colorado. No dia seguinte, acordamos do sonho e voltamos.
Renato e Camila, preparem o colchonete, porque ano que vem estaremos aí.
Gabi e Marcelo, obrigada por nos brindarem com essa festa maravilhosa. Estaremos aí na 2ª edição! Parabéns, parabéns, parabéns!!!!
Um brinde!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

FemAle na Estrada – Espanha – Parte 1

Eu brinco sempre com as meninas dizendo que sou a "FemAle Fantasma" já que, devido à minha quase sempre apertada agenda de trabalho, eu sou a que menos comparece aos nossos encontros. Por esse motivo, ninguém estranhou quando eu disse que não ia poder ir aos encontros em Outubro, mas pelo menos dessa vez eu tinha uma boa justificativa: uma viagem de trabalho e férias à Espanha, de onde surgiriam, portanto, posts deliciosos para a nossa série FemAle na Estrada. Cumprindo a promessa, vocês embarcam comigo agora para a Espanha.


Madrid


Em meio a congresso, trabalho, festas, jantares, tourada e até uma visita ao estádio Santiago Bernabéu, infelizmente não consegui visitar nenhum bar de cervejas especiais, embora um amigo espanhol tenha me dito que eles começam a pipocar por Madrid também. No entanto, em uma cidade deslumbrante, cosmopolita, calorosa e com um povo alegre e receptivo como Madrid, não faltaram happy-hours em bares de tapas, que ficam perfeitos com os chopinhos locais, mais encorpados porém geladinhos como os nossos.


Os madrilenhos preferem a Mahou, cerveja patrocinadora do Real Madrid, uma pilsen aguadinha e pouco mais maltada e lupulada do que as nossas, mas sem grandes destaques para mim.



Sim, a Copa da UEFA do Real Madrid nas minhas mãos merece muito mais destaque nesse blog do que a Mahou! rs


Provei ainda uma Amstel 100% Malta no hotel pra acompanhar um prato do delicioso Jamón de Bellota e um Revuelto de Gambas (uma espécie de omelete, no caso de camarões, típico da Espanha). Se ela não estivesse puro DMS, teria acompanhado bem o presunto, pois é uma cerveja bem maltada e encorpada.



Bonito, né? A comida espanhola é deliciosa! Pena que a Amstel estava ruim...


Um amigo havia me indicado a cervejaria Naturbier como um dos points de cervejas artesanais na cidade, mas realmente não deu tempo de ir lá. Quem for, por favor, conte-nos o que achou. Senão, fica a promessa de um post futuro sobre essa e outras cervejarias em Madrid, cidade que ficou no meu coração e onde tenho amigos, motivos mais que suficientes para me fazerem desejar retornar em breve.


Sevilha


O calor de 32° C em pleno mês de outubro não me animou para outra coisa que não fossem tapas e chopinhos por essa cidade linda, localizada no coração da Andalucia, região sul da Espanha. Perdida em suas ruelas e ao som das castanholas, fui parar numa “cerveceria” ao fim da tarde para beber a pilsen local Cruz Campo. Geladinha, levemente encorpada e com malte e lúpulo bem equilibrados, caiu deliciosamente bem ao fim de um dia exaustivo de caminhadas. Olha a minha cara de cansada feliz na foto! rs



A Cruz Campo é original de Sevilha, mas facilmente encontrável em toda a Espanha.


Granada


Já em Granada, após almoçar em uma teteria chamada Kashbah (juro que só comi lá por causa do The Clash! rs) e caminhar a tarde inteira pelo lindíssimo complexo de Alhambra, a temperatura caiu: 17° C à noite, com um ventinho friiiiio delicioso me convidando a uma cerva. As anotações de Madrid remetiam-me a uma bem lupulada pilsen local e o meu infalível guia de viagem recomendava-me um bar de tapas premiadíssimo numa rua pertinho do hotel.


Lá chegando, qual não foi minha surpresa ao deparar-me, do outro lado da rua, com um pub chamado La Taberna Del Irlandés, com uma vitrine de deixar qualquer cervejeiro de boca aberta. Fiquei parada que nem cachorro olhando máquina de frango, mas eu tinha que escrever um post sobre as cervejas espanholas e só tinha uma noite em Granada, então... entrei no pub! Hahaha! Entretanto, para a minha sorte — e a desse post também — o pub estava deserto e nenhum garçom apareceu antes que eu notasse uma plaquinha anunciando Argentina x Uruguai pelas eliminatórias da Copa. Imaginei-me sendo espancada ao sacanear algum argentino desesperado que estivesse pela área, meu senso de dever falou mais alto e eu atravessei a rua de volta ao bar de tapas. Sapientíssima decisão.


O Bodegas Castañeda (Calle Almireceros, 1 y 3, Granada) é M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O: a cada caña (cerveja) você ganha uma tapa, então provei quase que o cardápio inteiro! Como estava sozinha, fiquei logo amiga dos garçons, em especial do Antonio, que não só me deu dicas gastronômicas sobre a fantástica culinária local, como ainda mandou lavar os copos com mais capricho para as minhas fotos. Classe A!













Olha aí o dulcíssimo Antonio (Hola, Antonio! Muchas gracias!) com a minha Alhambra Especial na mão. Ao lado, uma geral do Bodegas Casteñeda já mais vazio. Pendurados, os deliciosos Jamóns Ibéricos.


Minha missão no Bodegas Castañeda era conhecer a cerveja Alhambra, uma pilsen encorpada e saborosa, lupulada na medida. Provei a versão Especial, em barril, que estava muito fresca. É uma cerveja mais maltada, de corpo leve e com espuma super cremosa. Já a Reserva 1925, engarrafada, é mais lupulada e pouco mais alcoólica, mas muito gostosa também.













Alhambra Especial: no barril e na minha mão. Abaixo, à esquerda, a Alhambra Reserva 1925 e, à direita, as duas juntinhas. Que delícia!











A diferença de cor é bem perceptível, mesmo na minha foto não tão boa: a Especial é um chopp amarelo claro, enquanto que a 1925 tem um dourado mais bonito e um pouco mais de corpo, além de ser mais perfumada, com um agradável aroma floral de lúpulo. A grande vantagem da Alhambra é que ela permanece livre de conservantes e não tem adição de milho ou outros cereais barateadores, e sua versão em garrafa é fácil de encontrar pela Espanha.


Ambas combinaram muito bem com as deliciosas tapas do Bodegas, destaque para o Jamón de Trevélez (abaixo na foto), cuja maciez e suave adocicado harmonizaram perfeitamente com o armagor e o aroma floral do lúpulo da 1925. Já o Bacalao Macerao, preparado com suco de laranja, o fenomenal azeite espanhol, pimentões vermelhos e azeitonas pretas, casou perfeitamente com a leveza maltada da Alhambra Especial. Como nos bares de Granada cada caña dá direito a uma tapa, provei ainda outras delícias da cozinha andaluza, como as Berinjenas Rellenas (na foto), Batatas Ali e Olio, queijos, azeitonas, lomos e outros frios ibéricos. Tudo para comer de joelhos!





Para aqueles que ficaram curiosos sobre experiências não cervejeiras nesses lindos lugares que conheci na Espanha, fiquem de olho no Vivo Viajando, onde postarei, aos poucos, lugares e prazeres espanhóis dignos de nota.


Nossa próxima parada: Barcelona. Até lá! Cheers!